Cotidiano

Relatos: O que fica depois da Covid-19?

21/07/2020
Conteúdo produzido por Jaime Neto

Não é só a insegurança de não saber muito da doença em si, mas o receio de acontecer algo grave, o afastamento dos familiares, as milhares de informações desencontradas diariamente repassadas e contaminadas de fake news. São tantos medos que o doente precisa administrar que tudo acaba ganhando outro peso. Que tempos estranhos. As relações humanas mudaram totalmente, e mesmo que se tente prever como será o futuro, ninguém sabe ao certo como agir, nem como planejar nada. 

Sobreviver ao coronavírus vai além do sair de cadeira de rodas dos hospitais (para os casos mais graves), vai além da falta de ar que cerca boa parte dos casos, e parece que deixa marcas entre o coração e a cabeça, onde razão e emoção se misturam de forma igual. O ESPIE conversou com quatro sobreviventes da covid-19, e neste caso a palavra “sobrevivente” tem outros significados. Vamos conhecer seus relatos? 

Maíra Campos (Arquiteta) 

Estava no Mercado Central (em Aracaju) quando me dei conta que não estava sentindo cheiros, por mais fortes que pudessem ser. Pensei que poderia ser a máscara atrapalhando, mas ao chegar em minha casa já busquei sentir cheiro do xampu, perfume e nada era notado por mais próximo que estivesse do meu nariz. Pensei de imediato: “peguei Covid, e agora?”. 

Conversei por telefone com uma médica, que me orientou aguardar dois dias para fazer o teste. Fiquei tensa! Conversei com amigos não médicos que me disseram que provavelmente era alergia. Relaxei. Dois dias depois consegui contato com meu otorrino que me orientou a ir imediatamente numa urgência, pois era um sintoma clássico de Covid. Fiquei tensa novamente e segui a orientação. 

No hospital vi muitas pessoas que aparentavam um estado de grande abatimento e cansaço, enquanto eu só não sentia o cheiro e o sabor de nada. Continuava um pouco incrédula. A médica que me atendeu passou uma bateria de exames e, ao final, ouvi que a suspeita era Covid e estava tudo bem, mas que a orientação era ficar 14 dias de quarentena e tomar os remédios prescritos. 

No primeiro dia tentei levar uma vida “normal” dentro do quarto: ligações de trabalho, cursos on-line e o que aquele espaço permitia. Avisei a algumas pessoas próximas sobre o que estava acontecendo e recebi muito carinho. Nesse momento, meu maior medo era contaminar meu marido. 

No segundo dia comecei a sentir dores abdominais, enjoos, insônia e já não tinha fome e nem vontade de levantar da cama. Meus olhos ficaram muitos vermelhos e ardiam. Em alguns momentos, eu levantava, produzia algo no computador, mas logo uma força me puxava de volta pra cama. Comecei a ter também medo de como acordaria no dia seguinte. 

Comecei a ter memórias estranhas, de situações que pareciam sonho/realidade. Nessa altura, a insônia era companheira de madrugadas, eu tentava preencher com cursos on-line, mas não conseguia me concentrar. 

Ao final da primeira semana, recebi a confirmação da Covid. Continuava sem sentir cheiros e sabores, as dores abdominais tinham cessado e era frequente um estranho cansaço, mesmo sem ter feito qualquer esforço. Por outro lado, eu não tinha desenvolvido os sintomas graves e isso trazia um pequeno conforto. Comecei a planejar o que faria assim que terminasse meu isolamento: encontrar a minha família, que não via há dias e comer um saboroso bolo de chocolate. Isso me fazia aguentar o medo e o isolamento. 

No final da segunda semana comecei a confirmar o que desconfiava: estava com perda de memória, confusa e sem concentração. Esse momento foi o mais aterrorizante e entrei em pânico. As notícias não mencionavam esse tipo de sintoma, mas eu sabia que tinha algo diferente. 

A quarentena acabou e os sintomas não. Tentei buscar orientação médica, mas a doença é pouco conhecida e não existe um tratamento pós-Covid. Com 15 dias saí do quarto, com 17 dias voltei a trabalhar, com 21 dias sentei no sofá da sala e dormi na mesma cama que meu marido. Com 40 dias, ainda não sinto cheiros, nem sabores, não tive o sonhado encontro com a família e ainda me sinto confusa. O vírus foi embora, mas me deixou diferente. 


Greice Déda (Nutricionista) 

Quando estava em isolamento me senti impotente sem ter o controle da minha vida. Momentos de aflição dentro do quarto, amanhecia bem e de repente as horas passavam e as dores e indisposição voltavam. Passando noites em claro sem conseguir dormir, ansiosa pra sair daquela situação. 

Vivi momentos de angústia, reflexão e solidão, só pensava em voltar a ficar perto da minha família e, principalmente, do meu filho (escutar a voz dele e não poder tocar foi horrível). Tive muito medo de morrer, porque é uma doença muito imprevisível. Tudo isto me fez refletir que o que temos de mais valioso são as pessoas que amamos (família e amigos), pois sem a ajuda delas não sei o que seria de mim. Tive apoio de todos.  

Precisamos pensar no próximo e nas pessoas que amamos, temos que respeitar uns aos outros. Após a doença aprendi que temos que valorizar mais nossa família, ser mais solidário com a dor do outro. 


Dani Santos (Fotógrafa) 

Meu pós covid está sento muito estranho: sem ânimo, um pouco de medo do que pode vir e sabendo que não estamos imunes dá mais medo, porque tem pessoas pegando a doença de novo, tudo fica ainda muito inseguro e desconcertante. São muitas informações, mas o que não muda é o medo de alguma forma pegar novamente esse vírus! 

Esta semana retornei ao trabalho e fiquei muito feliz ao ver os rostos dos meus amigos de sala. Hoje até o vento no rosto vindo pro trabalho se tornou lindo. Ressignifiquei sensações e pensamentos. O que mudou também é que quero cuidar mais de minha saúde, já estou sendo acompanhada por uma nutricionista pra dar aquele reforço na minha imunidade. 

Hoje, sobretudo, sou grata por ter passado por esse vírus, que pra muita gente é letal, e ter me cuidado em casa!  


Rafael Mota (Jornalista) 

Meus sintomas foram leves, basicamente tive perda de olfato e paladar, o que não excluiu a tensão e o medo dos sintomas aparecerem no transcorrer dos dias. Durante o isolamento evitei ler e ver notícias relacionadas à pandemia, o que certamente iria gerar mais ansiedade.  

Busquei ficar sempre em contato com minha família, namorado e amigos, mantendo eles sempre informados. Tomei muito líquido (água, chá e suco), me alimentei bem, mesmo sem paladar, não perdi o apetite. Os dias são todos iguais e você acaba preso em um constante ressignificar das coisas.  

Fui salvo pela nova temporada de RuPaul's Drag Race na Netflix. 


 

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(Fotos: Acervo Pessoal)
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