LifeStyle

“Por que e para que ler Gabriel García Márquez? ou sobre uma aventura fantástica”

01/02/2021
Escrito por Ronaldo Gomes

Você já deve ter escutado, já deve ter esbarrado, já deve ter tido o ouvido tocado por esta indicação – mas, se não, prepare-se -: Cem Anos de Solidão! A clássica e famosa narrativa macondiana tecida através do nascimento de um vilarejo, nos confins da Colômbia. Nela, acompanhamos a saga dos Buendía, uma família marcada por inúmeras intermitências, gerações e gerações dessa família, uma árvore genealógica frutífera, embrionária, cheia de artífices.

Ler Gabo, como a gente chama, foi para mim uma experiência única, nunca antes experimentada (um formigamento no íntimo e no interior do íntimo). Para além de ser um romance que pode soar, a princípio, assustador, permeado por expectativas exacerbadas, é também uma narrativa sobre os detalhes, sobre o simples, sobre a vida cotidiana sendo constantemente atravessada pelo fantástico, cheia de digressões, ocasionalidades, tocada pela nossa própria capacidade de invenção, como se fosse possível, ao tempo em que se lê, reinventar àqueles personagens, cenários, diálogos, acontecimentos.

 

Nunca será fácil escrever sobre Cem Anos de Solidão porque, certamente, é sempre impossível alcança-lo na profundidade em que se apresenta. Não é possível resumi-lo, é necessário que o leia, para que o sinta. E é bonito sentir como Macondo parece nos convidar a uma constante brincadeira – seja com as palavras, seja com a descoberta do imprevisto na banalidade do que é costumeiro.

 

É necessário lê-lo como uma fábula, um jogo lúdico, mas sem relegá-lo apenas a isso. O contexto no qual foi escrito, o gênero que inaugurou – ou reinventou – é preciso tentar apreender todas essas partes que formam e consolidam a obra (até lida como uma metáfora da construção da nossa América, latina, única, explorada).

 

Por isso ler Cem Anos de Solidão é ler nossa memória: passada e futura. É ler sobre quem somos, quem nós somos pelas interferências e quem somos quando nos negam ou nos afirmam. Com críticas, ora sutis, ora não. Com dores, dispostas literalmente ou não. Por isso necessário, por isso preciso e afiado.

 

Ler García Márquez para pensar sobre nossa construção enquanto cidadãos de um continente invadido. Para experimentar o parecer pelo passe maravilhoso do susto de abrir a janela e se deparar com uma auréola de borboletas.

 

Em tempos tão acometidos pela brutalidade de um desgoverno, recorre-se, por vezes, à fuga; e fugir para Macondo talvez não resolva o problema, mas ajuda a entender que resistir é também ter um livro em mãos, com a possibilidade de viajar, rumo a um lugar onde tudo pode acontecer. Para ler Gabo é preciso fechar os olhos, respirar fundo e estar disposto à entrega. Entregar-se. 

 

*Ronaldo Gomes é jornalista, leitor compulsivo e dono do IG @amantesporlivro
 

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(Fotos: Divulgação)
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